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COM SEMENTE, COM SABOR

Na foto: Euler, irmão e avô.

Texto: Euler Andres Ribeiro

Hoje, vendo esta foto de quando eu era criança, me lembrei de um pé “franco” de laranja campista que havia aí ao fundo, no jardim da fazenda. Pé franco é como chamamos as árvores que não são enxerto. São provenientes de sementes. Embora comecem a produzir bem mais velhas, elas persistem por muito mais tempo, com frutas mais saborosas e sempre cheias de sementes.


Com o tempo, a quantidade de sementes foi decaindo e junto diminuiu o sabor das laranjas. Naquela época era comum a laranja cravo, que tinha o interior bem avermelhado e um sabor maravilhoso entre a tangerina e a laranja. Tinha tanta semente que a gente chupava e brincava de metralhadora. Nunca mais vi esta variedade.

Meu pai era um grande apreciador de laranjas e plantou 2 hectares com todos os tipos que existiam na época. A ultima novidade era a laranja pera-natal, variedade que produzia no verão. Me lembro da laranja seleta, enorme e com casca grossa, ótima para fazer doce. A laranja da terra, com sumo que anestesiava a boca como o jambu. Lima de bico, que tinha este nome por causa do formato, lembrando um bico de mamadeira. O limão doce tinha o interior da cor de limão, com sabor suave e perfumado. A laranja bahia com seu umbiguinho de fora e a serra d’água, dulcíssima, talvez sejam as poucas que encontramos atualmente depois do domínio da laranja pera.

A rainha do sabor era a laranja campista, que ainda possuía uma casca semi grossa, muito boa para aprender a descascar. Descascar laranja era uma arte muito apreciada na época. Quando consegui fazer aquela serpentina completa, do talo a ponta sem romper e sem ferir a laranja, meu pai me deu um prêmio: meu primeiro canivete. Foi um rito de passagem. Lembro de tudo isso com o aroma da laranja campista no olfato. E muitas sementes na boca.